sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Conto da vez #5


O crachá nos dentes por Lyggia Fagundes Telles

Começo por me identificar, eu sou um cachorro. Que não vai responder à nenhuma pergunta mesmo porque não sei as respostas, sou um cachorro e basta. Tantas raças vieram desaguar em mim como os afluentes de pequenos rios se perdendo e se encontrando no tempo e no acaso, mas qual dessas raças acabou por vigorar na soma, isto eu não sei dizer. Melhor assim. Fico na superfície sem indagar a raíz, agora não. Aqui onde estou posso passar quase despercebido em meio de outros que também levam os crachás dependurados no pescoço como os rótulos das garrafas de uísque. Que ninguém lê com atenção, estão todos muito ocupados para se interessar de verdade por um próximo que é único e múltiplo apesar da identidade. Às vezes, fico raivoso, meu pelô se eriça e cerro os maxilares rolando e ganindo, quero fugir, morder. Mas as fases de cachorro logo passam. Então componho o peito, não sei, mas é o que faço quando desconfio que não estou agradando: componho o peito e volto à normalidade de um cachorro manso. Doce.
O dono do circo, um hábil treinador de roupa vermelha com botões dourados, acabou por me ensinar muitas coisas, tais como falar no telefone, fazer piruetas e dançar. Quando resisto, ele vem queimar as minhas patas dianteiras com a ponta de um cigarro aceso, percebe de longe que estou vacilando na posição vertical e vem correndo e chiii... -queima as patas transgressoras até fazer aqueles furos. Então me levanto depressa e saio dançando com meu saiote de tule azul. Mas fui humano quando me apaixonei e virei um mutante que durou enquando durou a paixão. Abrasadora. E breve. Escondi os pequenos objetos reveladores e que não eram muitos, a coleira, o osso e os saiotes das noites de gala. Olhei de frente para o sol. Devo lembrar que eu varava feito uma seta salivando de medo os grandes arcos de fogo e eis que o medo desapareceu completamente quando me descobri em liberdade, todo o fogo vinha apenas aqui de dentro, do meu coração. Fiquei flamejante. Penso agora que flamejei demais eo meu amor que parecia feliz acabou se assustando, era um amor frágil, assustadiço. Tentei disfarçar tamanha intensidade, o medo de ter medo. Vem comigo! eu queria gritar e apenas sussurava. Passei a falar baixinho, escolhendo as palavras, os gestos e ainda assim o amor começou a se afastar. Delicadamente,m é certo, mas foi se afastando enquando crescia o meu desejo numa verdadeira descida dos infernos. È que estou amando por toda uma vida! eu podia ter dito. Mas me segurei, ah, o cuidado com que montava nesse corpo que se fechava, ficou uma concha. Não me abandone! Cheguei a implorar aos gritos no nosso último encontro. Desatei a escrerver-lhe cartas tão ardentes, bilhetes, repeti o mesmo texto em vários telegramas: Imenso Inextinguível ponto de exclamação.
Era noite quando fiquei só. Tranquei me no quarto e olhei a lua cheia com sua faze de pedra esclerosada. As estrelas. Abracei com tanta força a mim mesmo e comecei a procurar, onde? fui até à larga cama branca, ali nos juntamos tantas vezes, tanto fervor e aquele frio, fucei o travesseiro, as cobertas, onde? Onde. A busca desesperada continuou no sonho, sonhei que escalava a terra. Acordei exausto e enlameado, aos uivos. nem precisei ir ao espelho para saber que tinha virado de novo um cachorro. Amanhecia. Tomei o crachá nos dentes e voltei ao circo. O treinador me examinou mais atentamente e fez uma observação bem-humorada, que eu estava ficando velho. De resto, tudo me ocorreu sem novidade, como se não tivesse havido nenhuma interrupção. Dei valor aos meus dedos só depois que os perdi, podiam me servir agora para catar pulgas. Ou para caçar lá dentrodo ouvido ou limpar o ranho do focinho quando estou resfriado. Com aqueles dedos toquei flauta mas não me masturbei, nunca me masturbei enquanto fui um ser humano, não é estranho isso? Há ainda outras estranhezas, não importa. Aprendi também a rezar. Gosto muito de ouvir música e de ficar olhando as nuvens. Mas sou um cachorro e quando alguém devida, mostro as palmas das minhas patas queimadas.



Antologia Meus contos preferidos/pág.244

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